O mundo é simples e cabe na sua mão

Muitas das possibilidades trazidas pelo smartphone já são conhecidas e amplamente divulgadas. A cornucópia de aplicativos existentes permite que uma pessoa consiga desde pagar suas contas a solicitar uma cotação de empréstimo; desde pedir um táxi a reservar uma mesa num concorrido restaurante e saber se uma marca de vinho oferecida pelo maître é de fato boa; desde desviar de um engarrafamento, a evitar os radares e blitz da lei seca, a procurar o posto de gasolina ou o motel mais próximo; desde acompanhar os seus sinais vitais em tempo real a receber dicas de saúde ou uma ligação de seu médico desesperado para que você procure um hospital. Isso sem falar nas oportunidades para as empresas, como a de rastrear suas frotas, compartilhar informações com seus colaboradores a qualquer hora e permitir que eles trabalhem e participem de vídeo conferências de onde estiverem. Enfim, existe uma miríade de aplicações.

Do outro lado, tem o código aberto, os desenvolvedores que se aproveitam da facilidade de subir um aplicativo para lançar ideias inovadoras em tempo recorde, e a consequente explosão de startups, abraçando a cauda longa que o Google trouxe à tona faz pouco tempo, muito pouco tempo, aliás. Além disso, tem a venda de aparelhos – num mercado que cresce quase 90% ao ano no Brasil – com uma infinidade de sensores; os dispositivos vestíveis como o Google Glass ou os smartwatches que vêm por aí. As geladeiras e fogões cheios de recursos que auxiliam no manuseio dos alimentos. Ou, ainda, as TVs inteligentes, que misturam broadcast e online, gravam conteúdo e permitem compartilhá-lo a um clique do controle remoto. Tudo isso integrado ao celular. E, por falar em controle remoto, uma das mais práticas invenções humanas, quem diria, hoje ele está com os dias contados. Atualmente, a TV pode ser controlada com o smartphone, com a mão, com a voz e até com o olhar.

A grande diferença é que, ao invés de criar dificuldades para quem utiliza esses equipamentos, a vida das pessoas está se tornando extremamente simples. Não falo da diferença de penetração das classes sociais na rede, até porque acredito que rapidamente isso deve mudar, seja pelos movimentos atuais dos governos de oferecer subsídios fiscais aos aparelhos e redes Wi-fi de graça para a população, da migração da tecnologia GSM para redes 3G e 4G ou da desvalorização e alta depreciação nos aparelhos com a proliferação de novos modelos e players. A questão é que os entraves burocráticos e processuais que ainda encontramos para realizar uma série de atividades do nosso dia a dia estão sumindo com essas novas tecnologias. Isso tem muito a ver com o tamanho do seu bolso. Não estou falando do dinheiro, mas das dimensões físicas do que cabe nele. A limitação de construir algo que funcione bem numa tela de 60 centímetros quadrados controlada pelo polegar fez com que se buscasse a simplicidade de uma forma sem precedentes. E quando chegar o relógio inteligente, o espaço será ainda menor. É disso que estou falando. Simplificar.

E, num planeta mais simples, mais pessoas podem participar do que está acontecendo nele. Abrem-se possibilidades para todos. Todos, inclusive você. Se eu pudesse dar um conselho, é esse: compre um smartphone. Pois, assim como a Internet foi o seu passaporte para o mundo, o smartphone está se tornando o seu controle remoto do mundo.

 

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14/05/2010 – Causa Mortis

Papai resolve passar no mercado e de saída se depara com uma loja de peixes. Compra um pequeno aquário, um espécime raro (e caro) dentro, e os coloca no quarto dos filhos, sobre a cômoda ao lado do beliche. Dia seguinte, após os rebentos irem à aula, encontra o frasco cheio de água verde e o bichinho de barriga para cima. Parece morto. Mas, ao olhar de perto, o homem vê que a cauda ainda balança e a boca mexe, cada vez mais lenta. Alguns minutos e dar-se-á o adeus. Enfurecido, papai passa o dia esperando que Machado e Assis retornem e lhe entreguem o culpado. Certo de que não se denunciarão, pede-lhes que escrevam um texto indicando a provável causa da morte do animal. Caso contrário, castigo de uma semana. É claro que os gêmeos, 11 anos de traquinagem, fazem suas redações com capricho, ainda que em pedaço de hora. Machado, antitético e asmático, carrega no verbo; Assis, largo e clássico, nas locuções adverbiais. Vamos aos textos.

Machado – Peixe não tem coração. Tem. Mas é primitivo. Mais do que o do sapo, de quem é ancestral. Não palpita que nem o nosso. E peixe não solta bolhas. Não pisca o olho que nem Assis quando mente. Então, como saber se está vivo? A não ser que nade. Além disso, não corre atrás do osso, não lambe o meu rosto nem protege a casa. Que nem o Totó. É inútil. Para movê-lo, tem que esperar. Ou bater no vidro. Ou cutucá-lo, embora não com caneta que solta tinta. Meu irmão verborrágico dirá que aquelas dentro do aquário são minhas. E daí? Não gosto de peixes, mas dou um pau nele em ciências. Sei das coisas. Capisce? Enfim, sou inocente.

Também não posso ver animal sofrendo. Hoje, quando acordei, o bicho jazia imóvel no frasco colorido. Esperei e bati no vidro. Nada. Tratei de jogá-lo na pia. Tampei o ralo e tasquei água. Fria, claro. O danado se mexeu. Pensei ser por causa do movimento da água. Foi quando ele se aproximou da beira. Olhos de ator de novela. Cheguei bem perto. Tête-à-tête. Mexendo a boca, disse: “Vou morrer. O Assis me envenenou”. Pu-lo de volta no aquário. Crime resolvido. Fui me arrumar para a aula.

Assis – No pedestal de sua ultrajante ignorância habitam alguns protótipos de seres humanos, entre os quais destaco o meu mano Machado. Irmão (ou equívoco da natureza ao bipartir o óvulo de mamãe) que não merece nesta passagem um tratamento melhor ao ofertado, após o último arrebol, ao meu saudoso e falecido amigo de poucas badaladas. Sim, falo do Ciprino Carpio, ente cujo nome científico soou tão aveludado que resolvi o batizar assim, e agora – veja só – transita entre esta e aquela aguardando o julgamento de seu assassino.

Meu progenitor, fazíamos desenhos antes de dormir, e reconheço que eu, que durmo em cima, permiti sonolento que duas das penas, uma azul e outra amarela, iniciassem da cama ao aquário a trajetória que se mostrou derradeira ao meu querido. Mas meu consanguíneo, que tem nome de instrumento bélico, enquanto eu, de santo, foi triplamente equino. Ao ver o frasco escurecido (por tinta à base de água, insípida e inofensiva), um animal foi lavar o outro na pia… Penso que Ciprino morreu duas vezes. Quando atirado da água quente para a fria e vice-versa. Bicho desses é ectotérmico, não resiste. Machado odioso. Pleiteio brincar agora. Deixas?

Após ler os textos, Papai deixa. E liberta Machado também. Afinal, não é deles a culpa. Assis não matou, ao deixar cair as canetas. Seu irmão procurou por sinais de vida, e quando encontrou era tarde. Se, antes, o coração do bicho palpitasse, talvez este não se tivesse desesperado e partido para a infrutífera, embora reconhecida como boa ação, atitude. Enfim, esclarecido o episódio, convém concluir que tudo o que parece morto palpita. Menos peixe.

23/04/2010 – Da Pena (Dá Pena)

Dá pena

São três as certezas de que padece a figura humana. As mesmas de uma simples caneta.

Fugacidade da vida. Ela nasce para o mundo a partir do momento em que abandona a posição horizontal e começa a falar. Seu destino é percorrer caminhos tortuosos sobre o que não está escrito. Pode ser que se acidente ou destrua tudo o que fez em um instante. Também é viável que tais caminhos, ou passos certeiros entre eles, conduzam sua produção a um lugar na imortalidade, mas não ela. Ela aparece de várias maneiras. A mais nobre é reconhecida por aquilo que a veste, a sua forma, confere- lhe certa nobreza. Mas o conteúdo, o que traz dentro de si, por tempo maior sobreviverá. Embora este dependa daquela, se não for exibido, será vão; se empregado de modo a provocar desordem e repúdio, vil; se, ao contrário, trouxer algum valor além do material, poderá se tornar inesquecível. Mas não ela. Ela morrerá ou pela extenuação, ou pela ausência. E, independente das marcas que quiçá trará no corpo, sinais de notório empenho, em seu momento sepulcral é bem provável que dirão: não valeu a pena.

Atuação em benefício de outrem. Mesmo que opere como alguém a concretizar, a trazer para o papel novas ideias e valores, ela é manipulada. Se a existência lhe concede um poder incomum e extraordinário, também age de acordo com interesses alheios. E deve desenvolver afeição. Porque só, sem uma mão amiga a lhe guiar, de nada vale. A partir do momento em que ela entrega o que dela se espera, é relegada a um canto, exceto se outra vez se fizer útil. Se muito tempo fica ociosa, perde a vitalidade e pode ser que não produza mais nada. Deus queira que não. Afinal, muitas morrem antes de cumprir os desígnios para os quais foram geradas. Muitas não valem mesmo a pena, não deveriam nem ter nascido. Melhor, então, aceitar a condição de escrava: antes servir a alguém, do que não servir para nada.

Exclusividade. Não há outra igual a ela, pois, por mais parecida, a nova se alimentará de letras e palavras e frases que a anterior desconhece. Por isso, deveríamos destacar o seu valor único e procurar construir maravilhas através dela. A cada vez que ela se apresenta a nós, temos como missão voltá-la a serviço de um bem maior, que é a felicidade. Infelizmente, não é o que acontece. Como quase todas as obras da natureza, o que outrora era flor pode virar arma em mãos erradas. São vozes que cultuam maldade. É o amor como sinônimo de sexo. É a poesia em seu lamento decadente. Produzem-se frases sem sentido ou que não valeram a pena que lhes foi dispensada, que agora se encontra esgarçada sobre o tinteiro. Esquecem-se.

São três os motivos que levam a crer que a caneta que uso aqui se assemelha à figura humana, esta que transfere a seus acordes as características de um objeto banal.

Da pena.

12/03/2010 – Segunda pessoa

O que é que não me ensinaste?

Tu dizias gostar daquela palavra em inglês, serendipity, que significa descobrir por sorte algo grandioso. E me falavas que em nossa língua nada a traduzia, assim como no inglês não há termo para saudade. E discorrias sobre as curiosidades dos idiomas, suas origens, suas influências no português e traduções indevidas como a do Canal da Mancha, que deveria se chamar Canal da Manga, pois manche em francês é manga de camisa. Vez em quando abrias o Aurélio para comprovar uma definição, mas creio que era para me provar o que já sabias.

Outras vezes, tu colocavas Caetano Veloso no toca discos e me explicavas o que o cantor baiano queria dizer. Davas mais significados do que tinha letra na canção, mas aquilo não te importava como a mim. E junto a ele vinham Chico Buarque, Noel Rosa e João Gilberto. Com um copo de uísque, punhas Vinicius, e às vezes até esquecias que eu estava ali quando, tomado de inveja do compositor de fala simples, vociferavas uns xingamentos que eu desconhecia, mas se te perguntasse o que eles queriam dizer me porias para dormir.

De tempos em tempos, esparramavas sobre a mesa aquela coleção antiga de poetas, e ao acaso sorteavas um deles para a dissecação. E me ensinavas como se lia, e quando eu falava fechavas os olhos. Teu coração te doía ao absorver Mário Quintana, embora o poema preferido fosse um do Drummond. Lembro quando te perguntei se havias escrito algo, e me declamaste um soneto, uma das coisas mais lindas que já ouvi. Acho que minhas palmas ao final te envergonharam, pois nunca mais me deixaste avançar no assunto. Nem mamãe ousara contar o que só dias atrás, após a sua morte, eu descobriria, empacotando os seus pertences para doação: havias feito um caderno só de poemas. Hoje, ele conversa em minha cabeceira.

Por vezes, teu comportamento frente às palavras te causava overdose, recorda-te disso? Era tanto ensinamento, tanta chave querendo abrir portas nesta minha cabeça ainda em formação, que entravas em transe. Era como se as fabricasses em ouro puro, letra por letra. Amavas de verdade a tua profissão, e eu acho que me tinhas como o teu mais atencioso aluno, pois todas as terças e quintas trocavas tua caminhada noturna pelo meu aprendizado. Tenho certeza de que amor tão fervoroso pela língua foi o que causou o teu infarto.

Isso sem falar da defesa de uns que tu proclamavas imortais, e a abominação do restante. Não me permitias ler livros que estivessem na moda (embora eu o fizesse às escuras), sem antes concluir todos os da primeira fileira da estante, que nunca ficava vazia. O motivo, explicavas, era que a alma de um homem é a forma com que ele comunica tudo o que aprendeu, algo que só o faz bem aquele que se entrega – como tu o fizeste, pensavas, mas não dizias – a percorrer os quatro cantos da linguagem. E arrematavas: a língua é a nossa alma, a língua é a segunda pessoa que nos acompanha por toda a existência.

A tua e a minha vida não seriam as mesmas se não me guiasses, meus melhores anos, pelo universo das palavras. Embora tamanha a aventura, procuro e não encontro uma delas para expressar meu agradecimento. Esta, tu não me ensinaste. Quem sabe, em outro idioma…

Dorme em paz, meu velho. Saudade.

31/10/2008 – O jornaleiro e o jornalista

Até meados do século XIX no Brasil, os termos “jornaleiro” e “jornalista” foram usados para designar o mesmo profissional, ou seja, aquele que produz e vende jornais. Com os anos, surgiram diversas técnicas, classificações e diretrizes que, além de se converterem em maçantes manuais de redação, colaboraram para distinguir uma palavra da outra. Hoje, as dez principais diferenças entre o típico jornaleiro (o menino que vende jornais nas praças) e o jornalista (o porta-voz das notícias), são:

1. O jornaleiro leva as matérias, que não foram feitas por ele, para as ruas. O jornalista usa o que acontece nas ruas para fazer as matérias;

2. O jornaleiro, inexperiente, respeita muito o chefe, faz o que ele manda. O jornalista, experiente, segue suas convicções e sabe argumentar quando elas contradizem a vontade do seu superior;

3. O jornaleiro repete, em seu discurso para vender um jornal, os leads. Às vezes, ele cria algumas variações, ainda que suas frases permaneçam curtas. O jornalista é um pesquisador: apura, questiona, suscita o debate, enfim, provoca o leitor a se aprofundar na notícia;

4. Para o jornaleiro, cada dia gira em torno de um assunto diferente. “O que temos para hoje”, ele pergunta ao chefe. O jornalista passa até semanas trabalhando na mesma matéria, se necessário, para obter um resultado de qualidade;
5. O jornaleiro ganha um percentual em cima dos exemplares vendidos. Já o salário do jornalista está vinculado à sua reputação, pois é ele quem constrói o “nome” de um jornal;

6. Quanto mais jovem for o jornaleiro, melhor, pois assim é mais fácil convencer as pessoas a comprar os jornais. Com o jornalista, ocorre o contrário, isto é, quanto mais velho ele for, mais experiência trará para as suas reportagens;

7. Se o discurso do jornaleiro não vende, ele o muda logo. O jornalista, por sua vez, possui um estilo narrativo próprio que costuma carregar consigo durante anos;

8. O jornaleiro faz média com o público. O jornalista faz mídia para o público;

9. Não se exige que o jornaleiro seja um bom escritor, nem mesmo um bom leitor, pois sua linguagem é coloquial. Uma boa formação também não é pré-requisito para alguém ser um bom jornalista, mas o conhecimento é essencial para o seu trabalho. O jornalista culto aprofunda-se na linguagem, encontrando no leque de verbetes a palavra certa para descrever ou discorrer sobre algum fato;

10. Recentes tecnologias que alteram a velocidade na geração da notícia colocam um deles em extinção. O outro se prolifera no jornalismo.

E é aí que mora o perigo. Atualmente, debate-se quando se dará o adeus aos jornalões. Antes, no entanto, deve acontecer outro desaparecimento significativo. Podem voltar a significar a mesma coisa os termos “jornaleiro” e “jornalista”. Pelo que se vê, ocorrerá, em breve, o fim deste último.

Jornaleiro, sobra.

24/11/2008 – Entrevista

Maria Julia Sá Barreto Pimentel Trancoso nasceu em Recife, a 6 de setembro de 1946. Filha de um trabalhador de usina de açúcar e de uma dona de casa, foi a quinta a nascer de sete irmãos, dois meninos e cinco meninas. Teve uma infância modesta vivida ao redor da usina. Quando jovem, resolveu estudar Sociologia e Política na Universidade Federal de Pernambuco, onde era tida como aluna brilhante. Continuou seus estudos no Rio de Janeiro, de onde partiu, fugindo da ditadura, para o México. Acabou presa e torturada. De volta ao Brasil, casou-se, teve três filhos e hoje vive em Salvador, onde trabalha há mais de vinte anos com projetos que visam atender a comunidades carentes do sertão baiano.

1972. O Brasil vivia o auge do período ditatorial. A censura prévia prevalecia, atingindo quase todos os veículos de comunicação que não eram controlados pelo governo. Faculdades eram invadidas e fechadas. Várias pessoas eram presas. A Igreja enfrentava o Estado. Grupos de mais de três pessoas eram dispersados nas ruas. Pairava o medo.

Para uma jovem de 26 anos, socióloga, que trabalhava com uma equipe de vários profissionais recém-contratados, utilizando o método Paulo Freire de análise sócio-política, seu comportamento já seria suspeito. Toda a equipe anterior havia sido demitida. Julia era considerada o elo de ligação daquela com a nova equipe, ou seja, uma “informante”, uma persona non grata naquele ambiente.

Mas ela era talentosa. Com o apoio dos padres jesuítas, conseguiu junto a uma amiga uma bolsa de estudos e foi para o México (ela e a amiga tiraram os dois primeiros lugares do concurso). Passou antes pelo Peru, onde começou a se envolver com a miséria do lado oeste do continente. Em março, desembarcou na capital mexicana.

O curso era Educação Funcional de Adultos. Perto de setenta bolsistas de toda a América Latina estavam lá, inclusive de Cuba e do próprio México. Nos primeiros meses, teve lições teóricas da disciplina. Em seguida, pode viajar para conhecer as comunidades a serem estudadas. Viu muita miséria.

Trabalhou com índios das regiões centrais, indianistas, do México. Havia as comunidades que moravam nos vales, e outras mais apartadas da civilização. Nas primeiras, os índios eram mais abertos aos visitantes. Nas últimas, costumes seculares prevaleciam, como o fato da índia ser prometida ao seu futuro esposo aos quatro anos de idade.

No curso, conheceu o namorado, Carlos, mexicano, que a levou em mais viagens ao redor do país. Visitou os templos maias, as ruínas astecas. Passou a morar com ele em uma casa de estudantes, a popular república. Além deles e de outros moradores, vivia ali Pierre, um argelino filho de francês. Mas nem Julia nem o namorado desconfiavam que aquele homem era um guerrilheiro que guardava bombas embaixo da cama.

Na noite do dia 3 de outubro de 1972 (aquele mês ficaria conhecido no México como “Outubro Vermelho”, em referência ao Setembro Vermelho da França de 1968), vários soldados invadiram a casa à procura de Pierre, e prenderam todos os que lá se encontravam, inclusive Julia. “Chegaram os caras, botaram gravatas nos nossos olhos e levaram a gente para o campo de tortura”, ela diz.

Daí em diante, começou o tormento. Separaram as mulheres dos homens. Enquanto estes sofriam torturas mais brutais, físicas, as mulheres eram torturadas psicologicamente. Julia foi acusada de ter ateado fogo a uma biblioteca da cidade. “Eu disse que nem mesmo sabia onde era a biblioteca.” Simularam uma roleta russa (a arma estava vazia) na sua cabeça para que ela confessasse, mas nem isso fez com que Julia aceitasse a acusação inverídica: “Quando temos certeza de que não fizemos algo errado, é que nós somos mais firmes”.

Não havia assinado nenhum papel antes de ser presa. Ninguém lhe havia lido os seus direitos. O fato de ser brasileira, dois anos após a conquista canarinha do tricampeonato de futebol, fazia com que os soldados a tratassem um pouco melhor do que as outras mulheres, mas ainda assim pairava o medo do que poderia acontecer, ou de quanto tempo ela ficaria ali com eles. Foram cinco dias.

Pareceram muito mais. Pelo vão da gravata apertada nos olhos, ela via (já ouvia há algum tempo) os homens sendo torturados, seus gritos de socorro, suas confissões forçadas. Via muito sangue. Sabia que alguns sairiam dali para a morte. Mas não tinha medo de morrer.

Dormia muito. Certa vez, acordaram as mulheres pedindo que tirassem as roupas (exceto as vendas) para um exame médico. “Vocês vão tirar fotos nossas, não é?” Julia disse que, ao perceber que estava certa, começou a gritar a cada disparo do flash. Havia estufado a barriga e, quando os soldados lhe perguntaram por que gritava, disse que estava infectada por uma doença raríssima do Brasil chamada esquistossomose. Resultado: foi tratada com banhos regulares de sol e uma alimentação mais sadia.

Segundo ela, toda vez que os soldados torturavam um prisioneiro, serviam-lhes em seguida bons pratos, dizendo: “Vocês dizem que nós somos maus, mas somos bonzinhos”. Apesar de treinados pela CIA, Julia considerava os soldados inexperientes, tudo menos culpados pela ditadura que estendia seu manto sobre os direitos dos mexicanos. Inclusive, tentou dissuadir um deles do exercício da função. “Ele era muito bonito, podia ser qualquer coisa que quisesse. Acho que, se não o convenci, coloquei minhocas na cabeça dele”, ela conta.

Havia uma porta de aço pesada no local onde ela esteve presa, cuja batida ressoava (e, às vezes, ainda ressoa) em sua mente. Um dia, finalmente, esta porta se abriu e entrou um soldado bem uniformizado, provavelmente um comandante daquele grupo de soldados, dizendo: “Se fosse em qualquer outro país, vocês agora estariam mortos. Mas, como o México é uma democracia, vocês estão liberados”. Julia não acreditou. Fizeram-na assinar um documento prometendo não voltar ao México pelos próximos vinte anos.

Julia foi levada ao departamento de imigração, amontoada com outros ex-prisioneiros num caminhão do exército, coberta por uma lona e por metralhadoras. Ao ir para casa recolher as coisas antes de ir embora, viu que todos os seus pertences havia sido roubados, inclusive quatro mil pesos que seu pai lhe havia enviado e que deixava escondido entre os seus livros. Não tinha um centavo. Foi deportada para o Peru. Só conseguiu voltar ao Brasil porque conheceu um guatemalteca no vôo que a ouviu e a ajudou. Ela conhecia Rui Guerra, jornalista que também ajudou Julia em seu processo de retorno à pátria.

Julia foi recebida no Rio de Janeiro por Alceu Valença e mais alguns amigos e familiares. Antes, ao chegar ao Galeão, curiosamente, o fiscal da alfândega viu seu passaporte e perguntou a Julia se ela era de Recife. Conhecia o seu pai. “Consegui minha liberdade”, ela pensou. Mas foi levada por policiais para uma van, depois para a Praça XV. No caminho, o policial lhe disse: “Agora, você será presa novamente”, e depois: “Brincadeira, você está livre”.

Julia diz que demorou um tempo para falar português. Sua mente estava confusa. Não entendia uma palavra do nosso idioma, não conseguia se comunicar. Voltou a Recife, onde, junto à família, reaprendeu os passos da vida em sociedade. Casou-se. O ex-namorado mexicano ainda haveria de voltar ao Brasil atrás dela. Não quis saber dele.

Ela diz que aprendeu a valorizar muito a vida com aquele episódio. “Meu maior sonho era andar sozinha na calçada de Copacabana”. Conseguiu. Sobre a ditadura, espera nunca mais passar por algo parecido. “Perdi amigos”. Sobre o período em que esteve nas mãos dos soldados, sua confiança de que sairia viva não a deixou esmorecer um só instante. “Não derramei uma lágrima”, ela conclui.

Nenhuma lágrima merece ser derramada para aqueles que não dão valor à vida.

29/04/2009 – Parque das Bicicletas

Viva a tranquilidade deste oásis situado em uma das regiões mais movimentadas de São Paulo

No cruzamento das avenidas Indianópolis e Ibirapuera, na Zona Sul da capital paulista, circulam diariamente cerca de 100 mil veículos. Em uma das esquinas, localiza-se um dos mais tranquilos redutos verdes da cidade: o Parque das Bicicletas.

Inaugurado em 2000, o parque possui uma área total de 20 mil metros quadrados, com pistas amplas e planas em meio a palmeiras, ipês e outras árvores bem cuidadas. Há também áreas para a prática de skates, patins e um espaço onde os pais podem acompanhar as primeiras pedaladas de seus filhos, como é o caso da publicitária Celeste Tubenchlak, 33. “Há espaço para todas as idades”, ela diz, sem tirar os olhos de seu pequeno Lucas, 6, enquanto este dá voltas ao redor da pista principal. “Foi aqui que ele aprendeu a andar de bicicleta, e todo fim de semana ele pede para voltar”. Para quem não possui bicicleta, é possível alugar uma junto à entrada do parque. Há peças de vários tamanhos e modelos. O parque funciona das 6 às 22 horas, e é proibida a entrada de animais.

Há realmente opções de lazer para todas as faixas etárias. A poucos metros da ciclovia, encontra-se o Espaço da Terceira Idade, com aparelhos de ginástica exclusivos para idosos. São mais de 15 artefatos coloridos de metal e madeira, que – apesar de diferirem dos balanços, gangorras e escorregadores habituais nestes lugares – convidam à diversão até mesmo as crianças. É o primeiro núcleo de recreação deste tipo criado na cidade de São Paulo.
O parque também abriga algumas obras de arte, como as sete esculturas em resina feitas pelo artista plástico João Monteiro, trazidas do Vale do Anhangabaú para o local em dezembro de 2007. O conjunto, intitulado “Ginga Canonizada: deuses e semideuses do futebol brasileiro”, transmite uma sensação de elasticidade e movimento característicos dos nossos jogadores.

Além disso, há vários bancos e quiosques espalhados pelo terreno, onde é possível simplesmente sentar e respirar um pouco de ar puro. O local funciona como um refúgio em meio à correria da cidade grande. Em prol da tranquilidade, ao contrário de outros parques, lá dentro tampouco são permitidos veículos motorizados e vendedores ambulantes. Há noite, há bastante iluminação, já que as árvores encontram-se esparsamente distribuídas no seu interior, estando mais concentradas nas fronteiras, propositalmente com o intuito de isolar o parque da poluição sonora produzida pelas avenidas próximas. Na visão da estudante de administração Antonia Peres e Silva, 31, “a paz desse lugar é impressionante. Certamente virei aqui mais vezes”.

O espaço honra o nome que lhe foi atribuído. Para quem gosta de pedalar, o asfalto das ciclovias está bem conservado e há inclusive sinalização de direção. É o sítio ideal para fugir do amontoado de bicicletas que ocupam as pistas estreitas do vizinho Parque do Ibirapuera nos fins de semana. O único percalço é que uma volta inteira no parque, pelo seu tamanho reduzido, dura poucos minutos.

Para quem é novato nos pedais, o CAB – Clube de Amigos da Bike – organiza passeios a partir do parque toda segunda-feira. Segundo Sérgio Affonso, 28, vice-presidente do clube, “não precisa ser bicicleta com marchas, pois o passeio é bem light e tem a intenção apenas ensinar dicas de segurança aos que querem aprender a pedalar”.

Outro ponto negativo é que o espaço só abriga um banheiro masculino e um feminino. Nos dias de maior movimento, pode haver filas. Finalmente, constata-se ali a ausência de bebedouros. O visitante deve levar água consigo se não quiser passar sede. Mas nada disto tira o encanto de quem resolve saborear alguns momentos de sossego em São Paulo sem ter que se deslocar para lugares mais afastados, como o Horto Florestal ou o Parque da Cantareira.
Portanto, se você quer experimentar um pouco da graça, do contato com natureza e da calma transmitida pelo Parque das Bicicletas, não perca tempo. Há vagas para estacionamento dentro do parque e em ruas próximas. Mas, se você não tiver carro, não se preocupe. Vários ônibus podem levá-lo até lá. Consulte o site da SPTrans para mais detalhes. Bom passeio!

Parque das Bicicletas:
Endereço: Alameda Iraé (esquina com a Avenida Indianópolis), 35 – Moema, Zona Sul.
Quando: diariamente, das 6 às 22 horas.
Quanto custa: a entrada é gratuita. O aluguel da bicicleta custa R$ 5 para cada 30 minutos. Para alugar, é preciso levar um documento de identificação.

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