24/11/2008 – Entrevista
Maria Julia Sá Barreto Pimentel Trancoso nasceu em Recife, a 6 de setembro de 1946. Filha de um trabalhador de usina de açúcar e de uma dona de casa, foi a quinta a nascer de sete irmãos, dois meninos e cinco meninas. Teve uma infância modesta vivida ao redor da usina. Quando jovem, resolveu estudar Sociologia e Política na Universidade Federal de Pernambuco, onde era tida como aluna brilhante. Continuou seus estudos no Rio de Janeiro, de onde partiu, fugindo da ditadura, para o México. Acabou presa e torturada. De volta ao Brasil, casou-se, teve três filhos e hoje vive em Salvador, onde trabalha há mais de vinte anos com projetos que visam atender a comunidades carentes do sertão baiano.
1972. O Brasil vivia o auge do período ditatorial. A censura prévia prevalecia, atingindo quase todos os veículos de comunicação que não eram controlados pelo governo. Faculdades eram invadidas e fechadas. Várias pessoas eram presas. A Igreja enfrentava o Estado. Grupos de mais de três pessoas eram dispersados nas ruas. Pairava o medo.
Para uma jovem de 26 anos, socióloga, que trabalhava com uma equipe de vários profissionais recém-contratados, utilizando o método Paulo Freire de análise sócio-política, seu comportamento já seria suspeito. Toda a equipe anterior havia sido demitida. Julia era considerada o elo de ligação daquela com a nova equipe, ou seja, uma “informante”, uma persona non grata naquele ambiente.
Mas ela era talentosa. Com o apoio dos padres jesuítas, conseguiu junto a uma amiga uma bolsa de estudos e foi para o México (ela e a amiga tiraram os dois primeiros lugares do concurso). Passou antes pelo Peru, onde começou a se envolver com a miséria do lado oeste do continente. Em março, desembarcou na capital mexicana.
O curso era Educação Funcional de Adultos. Perto de setenta bolsistas de toda a América Latina estavam lá, inclusive de Cuba e do próprio México. Nos primeiros meses, teve lições teóricas da disciplina. Em seguida, pode viajar para conhecer as comunidades a serem estudadas. Viu muita miséria.
Trabalhou com índios das regiões centrais, indianistas, do México. Havia as comunidades que moravam nos vales, e outras mais apartadas da civilização. Nas primeiras, os índios eram mais abertos aos visitantes. Nas últimas, costumes seculares prevaleciam, como o fato da índia ser prometida ao seu futuro esposo aos quatro anos de idade.
No curso, conheceu o namorado, Carlos, mexicano, que a levou em mais viagens ao redor do país. Visitou os templos maias, as ruínas astecas. Passou a morar com ele em uma casa de estudantes, a popular república. Além deles e de outros moradores, vivia ali Pierre, um argelino filho de francês. Mas nem Julia nem o namorado desconfiavam que aquele homem era um guerrilheiro que guardava bombas embaixo da cama.
Na noite do dia 3 de outubro de 1972 (aquele mês ficaria conhecido no México como “Outubro Vermelho”, em referência ao Setembro Vermelho da França de 1968), vários soldados invadiram a casa à procura de Pierre, e prenderam todos os que lá se encontravam, inclusive Julia. “Chegaram os caras, botaram gravatas nos nossos olhos e levaram a gente para o campo de tortura”, ela diz.
Daí em diante, começou o tormento. Separaram as mulheres dos homens. Enquanto estes sofriam torturas mais brutais, físicas, as mulheres eram torturadas psicologicamente. Julia foi acusada de ter ateado fogo a uma biblioteca da cidade. “Eu disse que nem mesmo sabia onde era a biblioteca.” Simularam uma roleta russa (a arma estava vazia) na sua cabeça para que ela confessasse, mas nem isso fez com que Julia aceitasse a acusação inverídica: “Quando temos certeza de que não fizemos algo errado, é que nós somos mais firmes”.
Não havia assinado nenhum papel antes de ser presa. Ninguém lhe havia lido os seus direitos. O fato de ser brasileira, dois anos após a conquista canarinha do tricampeonato de futebol, fazia com que os soldados a tratassem um pouco melhor do que as outras mulheres, mas ainda assim pairava o medo do que poderia acontecer, ou de quanto tempo ela ficaria ali com eles. Foram cinco dias.
Pareceram muito mais. Pelo vão da gravata apertada nos olhos, ela via (já ouvia há algum tempo) os homens sendo torturados, seus gritos de socorro, suas confissões forçadas. Via muito sangue. Sabia que alguns sairiam dali para a morte. Mas não tinha medo de morrer.
Dormia muito. Certa vez, acordaram as mulheres pedindo que tirassem as roupas (exceto as vendas) para um exame médico. “Vocês vão tirar fotos nossas, não é?” Julia disse que, ao perceber que estava certa, começou a gritar a cada disparo do flash. Havia estufado a barriga e, quando os soldados lhe perguntaram por que gritava, disse que estava infectada por uma doença raríssima do Brasil chamada esquistossomose. Resultado: foi tratada com banhos regulares de sol e uma alimentação mais sadia.
Segundo ela, toda vez que os soldados torturavam um prisioneiro, serviam-lhes em seguida bons pratos, dizendo: “Vocês dizem que nós somos maus, mas somos bonzinhos”. Apesar de treinados pela CIA, Julia considerava os soldados inexperientes, tudo menos culpados pela ditadura que estendia seu manto sobre os direitos dos mexicanos. Inclusive, tentou dissuadir um deles do exercício da função. “Ele era muito bonito, podia ser qualquer coisa que quisesse. Acho que, se não o convenci, coloquei minhocas na cabeça dele”, ela conta.
Havia uma porta de aço pesada no local onde ela esteve presa, cuja batida ressoava (e, às vezes, ainda ressoa) em sua mente. Um dia, finalmente, esta porta se abriu e entrou um soldado bem uniformizado, provavelmente um comandante daquele grupo de soldados, dizendo: “Se fosse em qualquer outro país, vocês agora estariam mortos. Mas, como o México é uma democracia, vocês estão liberados”. Julia não acreditou. Fizeram-na assinar um documento prometendo não voltar ao México pelos próximos vinte anos.
Julia foi levada ao departamento de imigração, amontoada com outros ex-prisioneiros num caminhão do exército, coberta por uma lona e por metralhadoras. Ao ir para casa recolher as coisas antes de ir embora, viu que todos os seus pertences havia sido roubados, inclusive quatro mil pesos que seu pai lhe havia enviado e que deixava escondido entre os seus livros. Não tinha um centavo. Foi deportada para o Peru. Só conseguiu voltar ao Brasil porque conheceu um guatemalteca no vôo que a ouviu e a ajudou. Ela conhecia Rui Guerra, jornalista que também ajudou Julia em seu processo de retorno à pátria.
Julia foi recebida no Rio de Janeiro por Alceu Valença e mais alguns amigos e familiares. Antes, ao chegar ao Galeão, curiosamente, o fiscal da alfândega viu seu passaporte e perguntou a Julia se ela era de Recife. Conhecia o seu pai. “Consegui minha liberdade”, ela pensou. Mas foi levada por policiais para uma van, depois para a Praça XV. No caminho, o policial lhe disse: “Agora, você será presa novamente”, e depois: “Brincadeira, você está livre”.
Julia diz que demorou um tempo para falar português. Sua mente estava confusa. Não entendia uma palavra do nosso idioma, não conseguia se comunicar. Voltou a Recife, onde, junto à família, reaprendeu os passos da vida em sociedade. Casou-se. O ex-namorado mexicano ainda haveria de voltar ao Brasil atrás dela. Não quis saber dele.
Ela diz que aprendeu a valorizar muito a vida com aquele episódio. “Meu maior sonho era andar sozinha na calçada de Copacabana”. Conseguiu. Sobre a ditadura, espera nunca mais passar por algo parecido. “Perdi amigos”. Sobre o período em que esteve nas mãos dos soldados, sua confiança de que sairia viva não a deixou esmorecer um só instante. “Não derramei uma lágrima”, ela conclui.
Nenhuma lágrima merece ser derramada para aqueles que não dão valor à vida.

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