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31/10/2008 – O jornaleiro e o jornalista

Até meados do século XIX no Brasil, os termos “jornaleiro” e “jornalista” foram usados para designar o mesmo profissional, ou seja, aquele que produz e vende jornais. Com os anos, surgiram diversas técnicas, classificações e diretrizes que, além de se converterem em maçantes manuais de redação, colaboraram para distinguir uma palavra da outra. Hoje, as dez principais diferenças entre o típico jornaleiro (o menino que vende jornais nas praças) e o jornalista (o porta-voz das notícias), são:

1. O jornaleiro leva as matérias, que não foram feitas por ele, para as ruas. O jornalista usa o que acontece nas ruas para fazer as matérias;

2. O jornaleiro, inexperiente, respeita muito o chefe, faz o que ele manda. O jornalista, experiente, segue suas convicções e sabe argumentar quando elas contradizem a vontade do seu superior;

3. O jornaleiro repete, em seu discurso para vender um jornal, os leads. Às vezes, ele cria algumas variações, ainda que suas frases permaneçam curtas. O jornalista é um pesquisador: apura, questiona, suscita o debate, enfim, provoca o leitor a se aprofundar na notícia;

4. Para o jornaleiro, cada dia gira em torno de um assunto diferente. “O que temos para hoje”, ele pergunta ao chefe. O jornalista passa até semanas trabalhando na mesma matéria, se necessário, para obter um resultado de qualidade;
5. O jornaleiro ganha um percentual em cima dos exemplares vendidos. Já o salário do jornalista está vinculado à sua reputação, pois é ele quem constrói o “nome” de um jornal;

6. Quanto mais jovem for o jornaleiro, melhor, pois assim é mais fácil convencer as pessoas a comprar os jornais. Com o jornalista, ocorre o contrário, isto é, quanto mais velho ele for, mais experiência trará para as suas reportagens;

7. Se o discurso do jornaleiro não vende, ele o muda logo. O jornalista, por sua vez, possui um estilo narrativo próprio que costuma carregar consigo durante anos;

8. O jornaleiro faz média com o público. O jornalista faz mídia para o público;

9. Não se exige que o jornaleiro seja um bom escritor, nem mesmo um bom leitor, pois sua linguagem é coloquial. Uma boa formação também não é pré-requisito para alguém ser um bom jornalista, mas o conhecimento é essencial para o seu trabalho. O jornalista culto aprofunda-se na linguagem, encontrando no leque de verbetes a palavra certa para descrever ou discorrer sobre algum fato;

10. Recentes tecnologias que alteram a velocidade na geração da notícia colocam um deles em extinção. O outro se prolifera no jornalismo.

E é aí que mora o perigo. Atualmente, debate-se quando se dará o adeus aos jornalões. Antes, no entanto, deve acontecer outro desaparecimento significativo. Podem voltar a significar a mesma coisa os termos “jornaleiro” e “jornalista”. Pelo que se vê, ocorrerá, em breve, o fim deste último.

Jornaleiro, sobra.

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