23/04/2010 – Da Pena (Dá Pena)
Dá pena
São três as certezas de que padece a figura humana. As mesmas de uma simples caneta.
Fugacidade da vida. Ela nasce para o mundo a partir do momento em que abandona a posição horizontal e começa a falar. Seu destino é percorrer caminhos tortuosos sobre o que não está escrito. Pode ser que se acidente ou destrua tudo o que fez em um instante. Também é viável que tais caminhos, ou passos certeiros entre eles, conduzam sua produção a um lugar na imortalidade, mas não ela. Ela aparece de várias maneiras. A mais nobre é reconhecida por aquilo que a veste, a sua forma, confere- lhe certa nobreza. Mas o conteúdo, o que traz dentro de si, por tempo maior sobreviverá. Embora este dependa daquela, se não for exibido, será vão; se empregado de modo a provocar desordem e repúdio, vil; se, ao contrário, trouxer algum valor além do material, poderá se tornar inesquecível. Mas não ela. Ela morrerá ou pela extenuação, ou pela ausência. E, independente das marcas que quiçá trará no corpo, sinais de notório empenho, em seu momento sepulcral é bem provável que dirão: não valeu a pena.
Atuação em benefício de outrem. Mesmo que opere como alguém a concretizar, a trazer para o papel novas ideias e valores, ela é manipulada. Se a existência lhe concede um poder incomum e extraordinário, também age de acordo com interesses alheios. E deve desenvolver afeição. Porque só, sem uma mão amiga a lhe guiar, de nada vale. A partir do momento em que ela entrega o que dela se espera, é relegada a um canto, exceto se outra vez se fizer útil. Se muito tempo fica ociosa, perde a vitalidade e pode ser que não produza mais nada. Deus queira que não. Afinal, muitas morrem antes de cumprir os desígnios para os quais foram geradas. Muitas não valem mesmo a pena, não deveriam nem ter nascido. Melhor, então, aceitar a condição de escrava: antes servir a alguém, do que não servir para nada.
Exclusividade. Não há outra igual a ela, pois, por mais parecida, a nova se alimentará de letras e palavras e frases que a anterior desconhece. Por isso, deveríamos destacar o seu valor único e procurar construir maravilhas através dela. A cada vez que ela se apresenta a nós, temos como missão voltá-la a serviço de um bem maior, que é a felicidade. Infelizmente, não é o que acontece. Como quase todas as obras da natureza, o que outrora era flor pode virar arma em mãos erradas. São vozes que cultuam maldade. É o amor como sinônimo de sexo. É a poesia em seu lamento decadente. Produzem-se frases sem sentido ou que não valeram a pena que lhes foi dispensada, que agora se encontra esgarçada sobre o tinteiro. Esquecem-se.
São três os motivos que levam a crer que a caneta que uso aqui se assemelha à figura humana, esta que transfere a seus acordes as características de um objeto banal.
Da pena.

Tema da redação: relacionar a figura humana a um objeto. Se lida de baixo para cima (parágrafo por parágrafo), a relação entre os dois se faz de outra maneira – a partir da visão da pena.