14/05/2010 – Causa Mortis
Papai resolve passar no mercado e de saída se depara com uma loja de peixes. Compra um pequeno aquário, um espécime raro (e caro) dentro, e os coloca no quarto dos filhos, sobre a cômoda ao lado do beliche. Dia seguinte, após os rebentos irem à aula, encontra o frasco cheio de água verde e o bichinho de barriga para cima. Parece morto. Mas, ao olhar de perto, o homem vê que a cauda ainda balança e a boca mexe, cada vez mais lenta. Alguns minutos e dar-se-á o adeus. Enfurecido, papai passa o dia esperando que Machado e Assis retornem e lhe entreguem o culpado. Certo de que não se denunciarão, pede-lhes que escrevam um texto indicando a provável causa da morte do animal. Caso contrário, castigo de uma semana. É claro que os gêmeos, 11 anos de traquinagem, fazem suas redações com capricho, ainda que em pedaço de hora. Machado, antitético e asmático, carrega no verbo; Assis, largo e clássico, nas locuções adverbiais. Vamos aos textos.
Machado – Peixe não tem coração. Tem. Mas é primitivo. Mais do que o do sapo, de quem é ancestral. Não palpita que nem o nosso. E peixe não solta bolhas. Não pisca o olho que nem Assis quando mente. Então, como saber se está vivo? A não ser que nade. Além disso, não corre atrás do osso, não lambe o meu rosto nem protege a casa. Que nem o Totó. É inútil. Para movê-lo, tem que esperar. Ou bater no vidro. Ou cutucá-lo, embora não com caneta que solta tinta. Meu irmão verborrágico dirá que aquelas dentro do aquário são minhas. E daí? Não gosto de peixes, mas dou um pau nele em ciências. Sei das coisas. Capisce? Enfim, sou inocente.
Também não posso ver animal sofrendo. Hoje, quando acordei, o bicho jazia imóvel no frasco colorido. Esperei e bati no vidro. Nada. Tratei de jogá-lo na pia. Tampei o ralo e tasquei água. Fria, claro. O danado se mexeu. Pensei ser por causa do movimento da água. Foi quando ele se aproximou da beira. Olhos de ator de novela. Cheguei bem perto. Tête-à-tête. Mexendo a boca, disse: “Vou morrer. O Assis me envenenou”. Pu-lo de volta no aquário. Crime resolvido. Fui me arrumar para a aula.
Assis – No pedestal de sua ultrajante ignorância habitam alguns protótipos de seres humanos, entre os quais destaco o meu mano Machado. Irmão (ou equívoco da natureza ao bipartir o óvulo de mamãe) que não merece nesta passagem um tratamento melhor ao ofertado, após o último arrebol, ao meu saudoso e falecido amigo de poucas badaladas. Sim, falo do Ciprino Carpio, ente cujo nome científico soou tão aveludado que resolvi o batizar assim, e agora – veja só – transita entre esta e aquela aguardando o julgamento de seu assassino.
Meu progenitor, fazíamos desenhos antes de dormir, e reconheço que eu, que durmo em cima, permiti sonolento que duas das penas, uma azul e outra amarela, iniciassem da cama ao aquário a trajetória que se mostrou derradeira ao meu querido. Mas meu consanguíneo, que tem nome de instrumento bélico, enquanto eu, de santo, foi triplamente equino. Ao ver o frasco escurecido (por tinta à base de água, insípida e inofensiva), um animal foi lavar o outro na pia… Penso que Ciprino morreu duas vezes. Quando atirado da água quente para a fria e vice-versa. Bicho desses é ectotérmico, não resiste. Machado odioso. Pleiteio brincar agora. Deixas?
Após ler os textos, Papai deixa. E liberta Machado também. Afinal, não é deles a culpa. Assis não matou, ao deixar cair as canetas. Seu irmão procurou por sinais de vida, e quando encontrou era tarde. Se, antes, o coração do bicho palpitasse, talvez este não se tivesse desesperado e partido para a infrutífera, embora reconhecida como boa ação, atitude. Enfim, esclarecido o episódio, convém concluir que tudo o que parece morto palpita. Menos peixe.

Redação com o tema: “Tudo o que parece morto palpita”. Solicitou-se o emprego de dois estilos distintos de escrita; o número de parágrafos também estava pré-determinado.