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12/03/2010 – Segunda pessoa

O que é que não me ensinaste?

Tu dizias gostar daquela palavra em inglês, serendipity, que significa descobrir por sorte algo grandioso. E me falavas que em nossa língua nada a traduzia, assim como no inglês não há termo para saudade. E discorrias sobre as curiosidades dos idiomas, suas origens, suas influências no português e traduções indevidas como a do Canal da Mancha, que deveria se chamar Canal da Manga, pois manche em francês é manga de camisa. Vez em quando abrias o Aurélio para comprovar uma definição, mas creio que era para me provar o que já sabias.

Outras vezes, tu colocavas Caetano Veloso no toca discos e me explicavas o que o cantor baiano queria dizer. Davas mais significados do que tinha letra na canção, mas aquilo não te importava como a mim. E junto a ele vinham Chico Buarque, Noel Rosa e João Gilberto. Com um copo de uísque, punhas Vinicius, e às vezes até esquecias que eu estava ali quando, tomado de inveja do compositor de fala simples, vociferavas uns xingamentos que eu desconhecia, mas se te perguntasse o que eles queriam dizer me porias para dormir.

De tempos em tempos, esparramavas sobre a mesa aquela coleção antiga de poetas, e ao acaso sorteavas um deles para a dissecação. E me ensinavas como se lia, e quando eu falava fechavas os olhos. Teu coração te doía ao absorver Mário Quintana, embora o poema preferido fosse um do Drummond. Lembro quando te perguntei se havias escrito algo, e me declamaste um soneto, uma das coisas mais lindas que já ouvi. Acho que minhas palmas ao final te envergonharam, pois nunca mais me deixaste avançar no assunto. Nem mamãe ousara contar o que só dias atrás, após a sua morte, eu descobriria, empacotando os seus pertences para doação: havias feito um caderno só de poemas. Hoje, ele conversa em minha cabeceira.

Por vezes, teu comportamento frente às palavras te causava overdose, recorda-te disso? Era tanto ensinamento, tanta chave querendo abrir portas nesta minha cabeça ainda em formação, que entravas em transe. Era como se as fabricasses em ouro puro, letra por letra. Amavas de verdade a tua profissão, e eu acho que me tinhas como o teu mais atencioso aluno, pois todas as terças e quintas trocavas tua caminhada noturna pelo meu aprendizado. Tenho certeza de que amor tão fervoroso pela língua foi o que causou o teu infarto.

Isso sem falar da defesa de uns que tu proclamavas imortais, e a abominação do restante. Não me permitias ler livros que estivessem na moda (embora eu o fizesse às escuras), sem antes concluir todos os da primeira fileira da estante, que nunca ficava vazia. O motivo, explicavas, era que a alma de um homem é a forma com que ele comunica tudo o que aprendeu, algo que só o faz bem aquele que se entrega – como tu o fizeste, pensavas, mas não dizias – a percorrer os quatro cantos da linguagem. E arrematavas: a língua é a nossa alma, a língua é a segunda pessoa que nos acompanha por toda a existência.

A tua e a minha vida não seriam as mesmas se não me guiasses, meus melhores anos, pelo universo das palavras. Embora tamanha a aventura, procuro e não encontro uma delas para expressar meu agradecimento. Esta, tu não me ensinaste. Quem sabe, em outro idioma…

Dorme em paz, meu velho. Saudade.

  1. 27/05/2010 às 4:16 pm | #1

    Tema: escrever sobre a descoberta da linguagem.

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