14/05/2010 – Causa Mortis

Papai resolve passar no mercado e de saída se depara com uma loja de peixes. Compra um pequeno aquário, um espécime raro (e caro) dentro, e os coloca no quarto dos filhos, sobre a cômoda ao lado do beliche. Dia seguinte, após os rebentos irem à aula, encontra o frasco cheio de água verde e o bichinho de barriga para cima. Parece morto. Mas, ao olhar de perto, o homem vê que a cauda ainda balança e a boca mexe, cada vez mais lenta. Alguns minutos e dar-se-á o adeus. Enfurecido, papai passa o dia esperando que Machado e Assis retornem e lhe entreguem o culpado. Certo de que não se denunciarão, pede-lhes que escrevam um texto indicando a provável causa da morte do animal. Caso contrário, castigo de uma semana. É claro que os gêmeos, 11 anos de traquinagem, fazem suas redações com capricho, ainda que em pedaço de hora. Machado, antitético e asmático, carrega no verbo; Assis, largo e clássico, nas locuções adverbiais. Vamos aos textos.

Machado – Peixe não tem coração. Tem. Mas é primitivo. Mais do que o do sapo, de quem é ancestral. Não palpita que nem o nosso. E peixe não solta bolhas. Não pisca o olho que nem Assis quando mente. Então, como saber se está vivo? A não ser que nade. Além disso, não corre atrás do osso, não lambe o meu rosto nem protege a casa. Que nem o Totó. É inútil. Para movê-lo, tem que esperar. Ou bater no vidro. Ou cutucá-lo, embora não com caneta que solta tinta. Meu irmão verborrágico dirá que aquelas dentro do aquário são minhas. E daí? Não gosto de peixes, mas dou um pau nele em ciências. Sei das coisas. Capisce? Enfim, sou inocente.

Também não posso ver animal sofrendo. Hoje, quando acordei, o bicho jazia imóvel no frasco colorido. Esperei e bati no vidro. Nada. Tratei de jogá-lo na pia. Tampei o ralo e tasquei água. Fria, claro. O danado se mexeu. Pensei ser por causa do movimento da água. Foi quando ele se aproximou da beira. Olhos de ator de novela. Cheguei bem perto. Tête-à-tête. Mexendo a boca, disse: “Vou morrer. O Assis me envenenou”. Pu-lo de volta no aquário. Crime resolvido. Fui me arrumar para a aula.

Assis – No pedestal de sua ultrajante ignorância habitam alguns protótipos de seres humanos, entre os quais destaco o meu mano Machado. Irmão (ou equívoco da natureza ao bipartir o óvulo de mamãe) que não merece nesta passagem um tratamento melhor ao ofertado, após o último arrebol, ao meu saudoso e falecido amigo de poucas badaladas. Sim, falo do Ciprino Carpio, ente cujo nome científico soou tão aveludado que resolvi o batizar assim, e agora – veja só – transita entre esta e aquela aguardando o julgamento de seu assassino.

Meu progenitor, fazíamos desenhos antes de dormir, e reconheço que eu, que durmo em cima, permiti sonolento que duas das penas, uma azul e outra amarela, iniciassem da cama ao aquário a trajetória que se mostrou derradeira ao meu querido. Mas meu consanguíneo, que tem nome de instrumento bélico, enquanto eu, de santo, foi triplamente equino. Ao ver o frasco escurecido (por tinta à base de água, insípida e inofensiva), um animal foi lavar o outro na pia… Penso que Ciprino morreu duas vezes. Quando atirado da água quente para a fria e vice-versa. Bicho desses é ectotérmico, não resiste. Machado odioso. Pleiteio brincar agora. Deixas?

Após ler os textos, Papai deixa. E liberta Machado também. Afinal, não é deles a culpa. Assis não matou, ao deixar cair as canetas. Seu irmão procurou por sinais de vida, e quando encontrou era tarde. Se, antes, o coração do bicho palpitasse, talvez este não se tivesse desesperado e partido para a infrutífera, embora reconhecida como boa ação, atitude. Enfim, esclarecido o episódio, convém concluir que tudo o que parece morto palpita. Menos peixe.

23/04/2010 – Da Pena (Dá Pena)

Dá pena

São três as certezas de que padece a figura humana. As mesmas de uma simples caneta.

Fugacidade da vida. Ela nasce para o mundo a partir do momento em que abandona a posição horizontal e começa a falar. Seu destino é percorrer caminhos tortuosos sobre o que não está escrito. Pode ser que se acidente ou destrua tudo o que fez em um instante. Também é viável que tais caminhos, ou passos certeiros entre eles, conduzam sua produção a um lugar na imortalidade, mas não ela. Ela aparece de várias maneiras. A mais nobre é reconhecida por aquilo que a veste, a sua forma, confere- lhe certa nobreza. Mas o conteúdo, o que traz dentro de si, por tempo maior sobreviverá. Embora este dependa daquela, se não for exibido, será vão; se empregado de modo a provocar desordem e repúdio, vil; se, ao contrário, trouxer algum valor além do material, poderá se tornar inesquecível. Mas não ela. Ela morrerá ou pela extenuação, ou pela ausência. E, independente das marcas que quiçá trará no corpo, sinais de notório empenho, em seu momento sepulcral é bem provável que dirão: não valeu a pena.

Atuação em benefício de outrem. Mesmo que opere como alguém a concretizar, a trazer para o papel novas ideias e valores, ela é manipulada. Se a existência lhe concede um poder incomum e extraordinário, também age de acordo com interesses alheios. E deve desenvolver afeição. Porque só, sem uma mão amiga a lhe guiar, de nada vale. A partir do momento em que ela entrega o que dela se espera, é relegada a um canto, exceto se outra vez se fizer útil. Se muito tempo fica ociosa, perde a vitalidade e pode ser que não produza mais nada. Deus queira que não. Afinal, muitas morrem antes de cumprir os desígnios para os quais foram geradas. Muitas não valem mesmo a pena, não deveriam nem ter nascido. Melhor, então, aceitar a condição de escrava: antes servir a alguém, do que não servir para nada.

Exclusividade. Não há outra igual a ela, pois, por mais parecida, a nova se alimentará de letras e palavras e frases que a anterior desconhece. Por isso, deveríamos destacar o seu valor único e procurar construir maravilhas através dela. A cada vez que ela se apresenta a nós, temos como missão voltá-la a serviço de um bem maior, que é a felicidade. Infelizmente, não é o que acontece. Como quase todas as obras da natureza, o que outrora era flor pode virar arma em mãos erradas. São vozes que cultuam maldade. É o amor como sinônimo de sexo. É a poesia em seu lamento decadente. Produzem-se frases sem sentido ou que não valeram a pena que lhes foi dispensada, que agora se encontra esgarçada sobre o tinteiro. Esquecem-se.

São três os motivos que levam a crer que a caneta que uso aqui se assemelha à figura humana, esta que transfere a seus acordes as características de um objeto banal.

Da pena.

12/03/2010 – Segunda pessoa

O que é que não me ensinaste?

Tu dizias gostar daquela palavra em inglês, serendipity, que significa descobrir por sorte algo grandioso. E me falavas que em nossa língua nada a traduzia, assim como no inglês não há termo para saudade. E discorrias sobre as curiosidades dos idiomas, suas origens, suas influências no português e traduções indevidas como a do Canal da Mancha, que deveria se chamar Canal da Manga, pois manche em francês é manga de camisa. Vez em quando abrias o Aurélio para comprovar uma definição, mas creio que era para me provar o que já sabias.

Outras vezes, tu colocavas Caetano Veloso no toca discos e me explicavas o que o cantor baiano queria dizer. Davas mais significados do que tinha letra na canção, mas aquilo não te importava como a mim. E junto a ele vinham Chico Buarque, Noel Rosa e João Gilberto. Com um copo de uísque, punhas Vinicius, e às vezes até esquecias que eu estava ali quando, tomado de inveja do compositor de fala simples, vociferavas uns xingamentos que eu desconhecia, mas se te perguntasse o que eles queriam dizer me porias para dormir.

De tempos em tempos, esparramavas sobre a mesa aquela coleção antiga de poetas, e ao acaso sorteavas um deles para a dissecação. E me ensinavas como se lia, e quando eu falava fechavas os olhos. Teu coração te doía ao absorver Mário Quintana, embora o poema preferido fosse um do Drummond. Lembro quando te perguntei se havias escrito algo, e me declamaste um soneto, uma das coisas mais lindas que já ouvi. Acho que minhas palmas ao final te envergonharam, pois nunca mais me deixaste avançar no assunto. Nem mamãe ousara contar o que só dias atrás, após a sua morte, eu descobriria, empacotando os seus pertences para doação: havias feito um caderno só de poemas. Hoje, ele conversa em minha cabeceira.

Por vezes, teu comportamento frente às palavras te causava overdose, recorda-te disso? Era tanto ensinamento, tanta chave querendo abrir portas nesta minha cabeça ainda em formação, que entravas em transe. Era como se as fabricasses em ouro puro, letra por letra. Amavas de verdade a tua profissão, e eu acho que me tinhas como o teu mais atencioso aluno, pois todas as terças e quintas trocavas tua caminhada noturna pelo meu aprendizado. Tenho certeza de que amor tão fervoroso pela língua foi o que causou o teu infarto.

Isso sem falar da defesa de uns que tu proclamavas imortais, e a abominação do restante. Não me permitias ler livros que estivessem na moda (embora eu o fizesse às escuras), sem antes concluir todos os da primeira fileira da estante, que nunca ficava vazia. O motivo, explicavas, era que a alma de um homem é a forma com que ele comunica tudo o que aprendeu, algo que só o faz bem aquele que se entrega – como tu o fizeste, pensavas, mas não dizias – a percorrer os quatro cantos da linguagem. E arrematavas: a língua é a nossa alma, a língua é a segunda pessoa que nos acompanha por toda a existência.

A tua e a minha vida não seriam as mesmas se não me guiasses, meus melhores anos, pelo universo das palavras. Embora tamanha a aventura, procuro e não encontro uma delas para expressar meu agradecimento. Esta, tu não me ensinaste. Quem sabe, em outro idioma…

Dorme em paz, meu velho. Saudade.

31/10/2008 – O jornaleiro e o jornalista

Até meados do século XIX no Brasil, os termos “jornaleiro” e “jornalista” foram usados para designar o mesmo profissional, ou seja, aquele que produz e vende jornais. Com os anos, surgiram diversas técnicas, classificações e diretrizes que, além de se converterem em maçantes manuais de redação, colaboraram para distinguir uma palavra da outra. Hoje, as dez principais diferenças entre o típico jornaleiro (o menino que vende jornais nas praças) e o jornalista (o porta-voz das notícias), são:

1. O jornaleiro leva as matérias, que não foram feitas por ele, para as ruas. O jornalista usa o que acontece nas ruas para fazer as matérias;

2. O jornaleiro, inexperiente, respeita muito o chefe, faz o que ele manda. O jornalista, experiente, segue suas convicções e sabe argumentar quando elas contradizem a vontade do seu superior;

3. O jornaleiro repete, em seu discurso para vender um jornal, os leads. Às vezes, ele cria algumas variações, ainda que suas frases permaneçam curtas. O jornalista é um pesquisador: apura, questiona, suscita o debate, enfim, provoca o leitor a se aprofundar na notícia;

4. Para o jornaleiro, cada dia gira em torno de um assunto diferente. “O que temos para hoje”, ele pergunta ao chefe. O jornalista passa até semanas trabalhando na mesma matéria, se necessário, para obter um resultado de qualidade;
5. O jornaleiro ganha um percentual em cima dos exemplares vendidos. Já o salário do jornalista está vinculado à sua reputação, pois é ele quem constrói o “nome” de um jornal;

6. Quanto mais jovem for o jornaleiro, melhor, pois assim é mais fácil convencer as pessoas a comprar os jornais. Com o jornalista, ocorre o contrário, isto é, quanto mais velho ele for, mais experiência trará para as suas reportagens;

7. Se o discurso do jornaleiro não vende, ele o muda logo. O jornalista, por sua vez, possui um estilo narrativo próprio que costuma carregar consigo durante anos;

8. O jornaleiro faz média com o público. O jornalista faz mídia para o público;

9. Não se exige que o jornaleiro seja um bom escritor, nem mesmo um bom leitor, pois sua linguagem é coloquial. Uma boa formação também não é pré-requisito para alguém ser um bom jornalista, mas o conhecimento é essencial para o seu trabalho. O jornalista culto aprofunda-se na linguagem, encontrando no leque de verbetes a palavra certa para descrever ou discorrer sobre algum fato;

10. Recentes tecnologias que alteram a velocidade na geração da notícia colocam um deles em extinção. O outro se prolifera no jornalismo.

E é aí que mora o perigo. Atualmente, debate-se quando se dará o adeus aos jornalões. Antes, no entanto, deve acontecer outro desaparecimento significativo. Podem voltar a significar a mesma coisa os termos “jornaleiro” e “jornalista”. Pelo que se vê, ocorrerá, em breve, o fim deste último.

Jornaleiro, sobra.

24/11/2008 – Entrevista

Maria Julia Sá Barreto Pimentel Trancoso nasceu em Recife, a 6 de setembro de 1946. Filha de um trabalhador de usina de açúcar e de uma dona de casa, foi a quinta a nascer de sete irmãos, dois meninos e cinco meninas. Teve uma infância modesta vivida ao redor da usina. Quando jovem, resolveu estudar Sociologia e Política na Universidade Federal de Pernambuco, onde era tida como aluna brilhante. Continuou seus estudos no Rio de Janeiro, de onde partiu, fugindo da ditadura, para o México. Acabou presa e torturada. De volta ao Brasil, casou-se, teve três filhos e hoje vive em Salvador, onde trabalha há mais de vinte anos com projetos que visam atender a comunidades carentes do sertão baiano.

1972. O Brasil vivia o auge do período ditatorial. A censura prévia prevalecia, atingindo quase todos os veículos de comunicação que não eram controlados pelo governo. Faculdades eram invadidas e fechadas. Várias pessoas eram presas. A Igreja enfrentava o Estado. Grupos de mais de três pessoas eram dispersados nas ruas. Pairava o medo.

Para uma jovem de 26 anos, socióloga, que trabalhava com uma equipe de vários profissionais recém-contratados, utilizando o método Paulo Freire de análise sócio-política, seu comportamento já seria suspeito. Toda a equipe anterior havia sido demitida. Julia era considerada o elo de ligação daquela com a nova equipe, ou seja, uma “informante”, uma persona non grata naquele ambiente.

Mas ela era talentosa. Com o apoio dos padres jesuítas, conseguiu junto a uma amiga uma bolsa de estudos e foi para o México (ela e a amiga tiraram os dois primeiros lugares do concurso). Passou antes pelo Peru, onde começou a se envolver com a miséria do lado oeste do continente. Em março, desembarcou na capital mexicana.

O curso era Educação Funcional de Adultos. Perto de setenta bolsistas de toda a América Latina estavam lá, inclusive de Cuba e do próprio México. Nos primeiros meses, teve lições teóricas da disciplina. Em seguida, pode viajar para conhecer as comunidades a serem estudadas. Viu muita miséria.

Trabalhou com índios das regiões centrais, indianistas, do México. Havia as comunidades que moravam nos vales, e outras mais apartadas da civilização. Nas primeiras, os índios eram mais abertos aos visitantes. Nas últimas, costumes seculares prevaleciam, como o fato da índia ser prometida ao seu futuro esposo aos quatro anos de idade.

No curso, conheceu o namorado, Carlos, mexicano, que a levou em mais viagens ao redor do país. Visitou os templos maias, as ruínas astecas. Passou a morar com ele em uma casa de estudantes, a popular república. Além deles e de outros moradores, vivia ali Pierre, um argelino filho de francês. Mas nem Julia nem o namorado desconfiavam que aquele homem era um guerrilheiro que guardava bombas embaixo da cama.

Na noite do dia 3 de outubro de 1972 (aquele mês ficaria conhecido no México como “Outubro Vermelho”, em referência ao Setembro Vermelho da França de 1968), vários soldados invadiram a casa à procura de Pierre, e prenderam todos os que lá se encontravam, inclusive Julia. “Chegaram os caras, botaram gravatas nos nossos olhos e levaram a gente para o campo de tortura”, ela diz.

Daí em diante, começou o tormento. Separaram as mulheres dos homens. Enquanto estes sofriam torturas mais brutais, físicas, as mulheres eram torturadas psicologicamente. Julia foi acusada de ter ateado fogo a uma biblioteca da cidade. “Eu disse que nem mesmo sabia onde era a biblioteca.” Simularam uma roleta russa (a arma estava vazia) na sua cabeça para que ela confessasse, mas nem isso fez com que Julia aceitasse a acusação inverídica: “Quando temos certeza de que não fizemos algo errado, é que nós somos mais firmes”.

Não havia assinado nenhum papel antes de ser presa. Ninguém lhe havia lido os seus direitos. O fato de ser brasileira, dois anos após a conquista canarinha do tricampeonato de futebol, fazia com que os soldados a tratassem um pouco melhor do que as outras mulheres, mas ainda assim pairava o medo do que poderia acontecer, ou de quanto tempo ela ficaria ali com eles. Foram cinco dias.

Pareceram muito mais. Pelo vão da gravata apertada nos olhos, ela via (já ouvia há algum tempo) os homens sendo torturados, seus gritos de socorro, suas confissões forçadas. Via muito sangue. Sabia que alguns sairiam dali para a morte. Mas não tinha medo de morrer.

Dormia muito. Certa vez, acordaram as mulheres pedindo que tirassem as roupas (exceto as vendas) para um exame médico. “Vocês vão tirar fotos nossas, não é?” Julia disse que, ao perceber que estava certa, começou a gritar a cada disparo do flash. Havia estufado a barriga e, quando os soldados lhe perguntaram por que gritava, disse que estava infectada por uma doença raríssima do Brasil chamada esquistossomose. Resultado: foi tratada com banhos regulares de sol e uma alimentação mais sadia.

Segundo ela, toda vez que os soldados torturavam um prisioneiro, serviam-lhes em seguida bons pratos, dizendo: “Vocês dizem que nós somos maus, mas somos bonzinhos”. Apesar de treinados pela CIA, Julia considerava os soldados inexperientes, tudo menos culpados pela ditadura que estendia seu manto sobre os direitos dos mexicanos. Inclusive, tentou dissuadir um deles do exercício da função. “Ele era muito bonito, podia ser qualquer coisa que quisesse. Acho que, se não o convenci, coloquei minhocas na cabeça dele”, ela conta.

Havia uma porta de aço pesada no local onde ela esteve presa, cuja batida ressoava (e, às vezes, ainda ressoa) em sua mente. Um dia, finalmente, esta porta se abriu e entrou um soldado bem uniformizado, provavelmente um comandante daquele grupo de soldados, dizendo: “Se fosse em qualquer outro país, vocês agora estariam mortos. Mas, como o México é uma democracia, vocês estão liberados”. Julia não acreditou. Fizeram-na assinar um documento prometendo não voltar ao México pelos próximos vinte anos.

Julia foi levada ao departamento de imigração, amontoada com outros ex-prisioneiros num caminhão do exército, coberta por uma lona e por metralhadoras. Ao ir para casa recolher as coisas antes de ir embora, viu que todos os seus pertences havia sido roubados, inclusive quatro mil pesos que seu pai lhe havia enviado e que deixava escondido entre os seus livros. Não tinha um centavo. Foi deportada para o Peru. Só conseguiu voltar ao Brasil porque conheceu um guatemalteca no vôo que a ouviu e a ajudou. Ela conhecia Rui Guerra, jornalista que também ajudou Julia em seu processo de retorno à pátria.

Julia foi recebida no Rio de Janeiro por Alceu Valença e mais alguns amigos e familiares. Antes, ao chegar ao Galeão, curiosamente, o fiscal da alfândega viu seu passaporte e perguntou a Julia se ela era de Recife. Conhecia o seu pai. “Consegui minha liberdade”, ela pensou. Mas foi levada por policiais para uma van, depois para a Praça XV. No caminho, o policial lhe disse: “Agora, você será presa novamente”, e depois: “Brincadeira, você está livre”.

Julia diz que demorou um tempo para falar português. Sua mente estava confusa. Não entendia uma palavra do nosso idioma, não conseguia se comunicar. Voltou a Recife, onde, junto à família, reaprendeu os passos da vida em sociedade. Casou-se. O ex-namorado mexicano ainda haveria de voltar ao Brasil atrás dela. Não quis saber dele.

Ela diz que aprendeu a valorizar muito a vida com aquele episódio. “Meu maior sonho era andar sozinha na calçada de Copacabana”. Conseguiu. Sobre a ditadura, espera nunca mais passar por algo parecido. “Perdi amigos”. Sobre o período em que esteve nas mãos dos soldados, sua confiança de que sairia viva não a deixou esmorecer um só instante. “Não derramei uma lágrima”, ela conclui.

Nenhuma lágrima merece ser derramada para aqueles que não dão valor à vida.

29/04/2009 – Parque das Bicicletas

Viva a tranquilidade deste oásis situado em uma das regiões mais movimentadas de São Paulo

No cruzamento das avenidas Indianópolis e Ibirapuera, na Zona Sul da capital paulista, circulam diariamente cerca de 100 mil veículos. Em uma das esquinas, localiza-se um dos mais tranquilos redutos verdes da cidade: o Parque das Bicicletas.

Inaugurado em 2000, o parque possui uma área total de 20 mil metros quadrados, com pistas amplas e planas em meio a palmeiras, ipês e outras árvores bem cuidadas. Há também áreas para a prática de skates, patins e um espaço onde os pais podem acompanhar as primeiras pedaladas de seus filhos, como é o caso da publicitária Celeste Tubenchlak, 33. “Há espaço para todas as idades”, ela diz, sem tirar os olhos de seu pequeno Lucas, 6, enquanto este dá voltas ao redor da pista principal. “Foi aqui que ele aprendeu a andar de bicicleta, e todo fim de semana ele pede para voltar”. Para quem não possui bicicleta, é possível alugar uma junto à entrada do parque. Há peças de vários tamanhos e modelos. O parque funciona das 6 às 22 horas, e é proibida a entrada de animais.

Há realmente opções de lazer para todas as faixas etárias. A poucos metros da ciclovia, encontra-se o Espaço da Terceira Idade, com aparelhos de ginástica exclusivos para idosos. São mais de 15 artefatos coloridos de metal e madeira, que – apesar de diferirem dos balanços, gangorras e escorregadores habituais nestes lugares – convidam à diversão até mesmo as crianças. É o primeiro núcleo de recreação deste tipo criado na cidade de São Paulo.
O parque também abriga algumas obras de arte, como as sete esculturas em resina feitas pelo artista plástico João Monteiro, trazidas do Vale do Anhangabaú para o local em dezembro de 2007. O conjunto, intitulado “Ginga Canonizada: deuses e semideuses do futebol brasileiro”, transmite uma sensação de elasticidade e movimento característicos dos nossos jogadores.

Além disso, há vários bancos e quiosques espalhados pelo terreno, onde é possível simplesmente sentar e respirar um pouco de ar puro. O local funciona como um refúgio em meio à correria da cidade grande. Em prol da tranquilidade, ao contrário de outros parques, lá dentro tampouco são permitidos veículos motorizados e vendedores ambulantes. Há noite, há bastante iluminação, já que as árvores encontram-se esparsamente distribuídas no seu interior, estando mais concentradas nas fronteiras, propositalmente com o intuito de isolar o parque da poluição sonora produzida pelas avenidas próximas. Na visão da estudante de administração Antonia Peres e Silva, 31, “a paz desse lugar é impressionante. Certamente virei aqui mais vezes”.

O espaço honra o nome que lhe foi atribuído. Para quem gosta de pedalar, o asfalto das ciclovias está bem conservado e há inclusive sinalização de direção. É o sítio ideal para fugir do amontoado de bicicletas que ocupam as pistas estreitas do vizinho Parque do Ibirapuera nos fins de semana. O único percalço é que uma volta inteira no parque, pelo seu tamanho reduzido, dura poucos minutos.

Para quem é novato nos pedais, o CAB – Clube de Amigos da Bike – organiza passeios a partir do parque toda segunda-feira. Segundo Sérgio Affonso, 28, vice-presidente do clube, “não precisa ser bicicleta com marchas, pois o passeio é bem light e tem a intenção apenas ensinar dicas de segurança aos que querem aprender a pedalar”.

Outro ponto negativo é que o espaço só abriga um banheiro masculino e um feminino. Nos dias de maior movimento, pode haver filas. Finalmente, constata-se ali a ausência de bebedouros. O visitante deve levar água consigo se não quiser passar sede. Mas nada disto tira o encanto de quem resolve saborear alguns momentos de sossego em São Paulo sem ter que se deslocar para lugares mais afastados, como o Horto Florestal ou o Parque da Cantareira.
Portanto, se você quer experimentar um pouco da graça, do contato com natureza e da calma transmitida pelo Parque das Bicicletas, não perca tempo. Há vagas para estacionamento dentro do parque e em ruas próximas. Mas, se você não tiver carro, não se preocupe. Vários ônibus podem levá-lo até lá. Consulte o site da SPTrans para mais detalhes. Bom passeio!

Parque das Bicicletas:
Endereço: Alameda Iraé (esquina com a Avenida Indianópolis), 35 – Moema, Zona Sul.
Quando: diariamente, das 6 às 22 horas.
Quanto custa: a entrada é gratuita. O aluguel da bicicleta custa R$ 5 para cada 30 minutos. Para alugar, é preciso levar um documento de identificação.

07/03/2008 – A Consulta

Sua primeira consulta com o psicanalista fora marcada por curiosidade e medo – ele queria saber mais sobre si, mas temia que as descobertas lhe apontassem alguém que ele não apreciava. Em seu cérebro ansioso, enquanto se preparava para o encontro inédito, vinha uma imagem típica do século XVIII: de um lado, ele, o condenado, preso pelo pescoço sobre um pedestal móvel; do outro, seu psicanalista, o carrasco, olhando-o através da máscara, como quem diz: “Já tiveste o último desejo, infeliz, de modo que teu futuro agora é meu.”

Entrou, enfim, no cubículo destinado ao seu suplício. A iluminação era fraca. O cheiro lembrava o de algum produto de limpeza barato. Havia ali, além de um lugar para sentar, uma pia, um armário e um grande espelho, objetos estes incomuns no consultório de um psicanalista. Como ele saberia? Talvez achasse normal ser assim o seu debute na disciplina de Freud. Afinal, a consulta havia partido de uma decisão sua, após um trauma que removera todos os pedestais que existiam debaixo dos seus pés.

Sentou-se diante dele e logo a imagem da praça se desfez. À sua frente, fitava-o um homem sem máscara, um ser de aspecto simples, olhos e cabelos castanhos, entrecortados estes últimos por alguns fios brancos. Aparentava uns trinta e poucos anos, se não fossem contadas as olheiras, que denotavam maior idade. Trazia a barba mal feita ao redor da boca que, por sua vez, derramava um leve hálito de quem acabara de provar um destilado. Mesmo assim, o analista parecia bastante atento à sua presença.

Logo que questionado sobre o que lhe afligia, o analisado começou a explanar sua neurose em relação à brevidade da vida versus o quanto gostaria de viver. Contou em seguida a sua história. Falou sobre sua família, seus relacionamentos passados e presentes, seu trabalho, seu novo curso universitário; falou sobre seu lado escritor, seus poemas, sobre as musas e os amores que alimentava no terreno dos sonhos; falou sobre os demais sonhos (nessa hora seus olhos encheram-se de lágrimas), como o de dar um barco ao pai, enfim, resumiu em meia hora tudo o que julgava importante dizer de si.

O analista escutou tudo, sem anotar palavra sequer. De fato, durante todo o tempo diante do interlocutor, aqueles olhos castanhos não o deixaram um só instante. Pareciam penetrá-lo, escrutiná-lo como dois guardas à porta da cela, na chegada de um prisioneiro novo. Só que também pareciam entendê-lo, detectando nas frases e gestos os motivos que o levaram até ali. Nele, emergiam as angústias de todo ser humano, pelos sonhos não resolvidos, pelo amor não compreendido. Nunca o seriam, ambos. Pois viver era isso: conviver com o duelo do ser ou não ser. Ele buscava ser, intensamente, e sabia que isso só dependia dele. Sorte de poucos, refletiu, a de entender que as aflições são como pedras ao longo do caminho, mas que é preciso aprender a admirar a paisagem, ou seja, engrandecer o fato de pertencer ao mundo… E tudo se esclareceu, numa luz bem maior do que aquela do cubículo escurecido. Novas lágrimas vieram.

O psicanalista não precisou dizer mais nada. A consulta saiu de graça. Ele falou, ele ouviu. E, pairando no meio do caminho entre os dois, ao invés de pedras, um objeto a traduzir o momento mágico do autoconhecimento: o velho espelho do banheiro.

24/06/2008 – A Fé das Montanhas

A 3821 metros acima do nível do mar, na fronteira do Peru com a Bolívia, encontra-se o Titicaca, um impressionante lago de 8300 km2. É o lago navegável mais alto do mundo. Segundo uma lenda andina, de suas águas originou-se a civilização inca, um grupo indígena que impressionou os descobridores europeus por sua agricultura, destinada à subsistência da família e voltada a atender os menos favorecidos. Foi às margens do Titicaca que, há 52 anos, nasceu Daniel Mamani Chipana.

O pastor Daniel, como é conhecido pela comunidade de compatriotas bolivianos que freqüenta seus cultos dominicais na Igreja Batista Unida do Brás, revela-me a sua origem com os olhos marejados de quem simboliza a luta de um povo para vencer em meio às dificuldades. A pele, de um dourado escuro, os cabelos negros, as sobrancelhas finas, o nariz grande e as mãos calejadas apontam-lhe a origem indígena, do grupo dos aimarás. Mas é no olhar que encontro a força nativa com que ele conduz os seus ensinamentos evangélicos.

A sua história confunde-se com outras de uma classe de imigrantes que, no Brasil, continua sendo discriminada. Estima-se que 90% dos 60 mil bolivianos que vivem aqui residem em São Paulo. A maior parte deles trabalha em oficinas de costura controladas por coreanos. A carga horária é extenuante: de segunda a sábado, homens e mulheres trabalham das sete da manhã às dez da noite, com apenas uma hora de descanso.

Por diversas vezes, a minha conversa com Daniel é interrompida para que ele aperte a mão de cada um de seus “hermanos”. Estamos sentados em frente à entrada de um galpão, ao lado da igreja, onde ocorre um evento anual chamado Dia da Saúde. Nele, os bolivianos recebem atendimento médico e odontológico oferecido por uma equipe de voluntários ligados à congregação. Conto mais de cem pessoas, entre adultos e crianças, participando do evento.

Filho de um pastor evangélico, Daniel explica-me que possui sete irmãos. Além dele, outros três também são pastores. Mas a vocação familiar nem sempre foi o destino escolhido por este homem que, aos oito anos de idade, mudou-se para La Paz e estudou “até onde podia”, segundo ele mesmo diz, referindo-se à falta de dinheiro. Para se sustentar, com apenas doze anos, ele ocupava o emprego de técnico em uma indústria têxtil, uma das principais atividades da economia boliviana, o que não lhe apetecia.

O pai haveria de ajudá-lo a seguir os seus passos e conduzi-lo de volta à religião. Em pouco tempo, Daniel já pregava o evangelho em várias igrejas da capital de seu país. Dos vinte anos seguintes, ele recorda uma vida próspera e tranqüila. Casou-se com outra boliviana, Elle, e teve uma filha. Viviam em uma casa modesta, porém abastada. A história do pastor começou a mudar quando a sua filha e o marido vieram trabalhar em São Paulo, há aproximadamente uma década. A saudade fez com que a sua esposa também viesse viver no Brasil por uns tempos, deixando Daniel sozinho em La Paz. A conseqüência da solidão -segundo ele- foi um infarto e um problema nervoso que ameaçou arrancar-lhe a vida. Não conseguia mais trabalhar; locomover-se virara uma dificuldade.

Ele conta que a esposa retornou às pressas para a Bolívia e, seguindo uma crença indígena, colocou-o debaixo de uma ducha bem quente. “Parecia um milagre”, descreve Daniel. “De repente, meus nervos não doíam mais”. A mulher, vendo o marido recuperado, sugeriu que ele se mudasse para um lugar mais caloroso do que a capital boliviana, onde a temperatura anual oscila entre 1ºC e 19ºC. “Ela me propôs que começássemos uma vida nova no Brasil. Foi o que fizemos”.

A situação confortável do pastor evangélico ficou para trás nos primeiros meses em terras brasileiras. Sua experiência com as máquinas têxteis da infância não lhe servia para trabalhar junto a aparelhos mais modernos, operados por seus compatriotas. Ganhava pouco. Rapidamente, o dinheiro que tinha trazido da Bolívia se esgotou. Passou fome. Numa ocasião, teve que dividir uma caixa de leite entre 25 pessoas. Não acendia as luzes, à noite, para economizar.

Além disso, ele sentiu na pele o que significava ser um latino, ainda por cima pobre e com mais de quarenta anos, vivendo no Brasil. Foi discriminado. Ao saber que era boliviano, um brasileiro lhe perguntou se sabia somar um mais um. Tamanha era a humilhação que sofria que Daniel podia, facilmente, ter seguido o caminho de milhares de outros bolivianos que se enveredam pelas drogas ou pelo álcool. Mas a sua fé em Deus o impediu de desistir de lutar.

As divergências culturais também o incomodavam. Para um pastor, era difícil compreender a desvalorização de muitos brasileiros à entidade da família, algo sagrado para os bolivianos desde os tempos dos incas. Daniel aponta este como um dos principais fatores responsáveis pela separação que há, aqui, entre os dois povos.

Ele pensou em voltar para a Bolívia. Apenas seis meses haviam se passado desde que chegara ao Brasil. Porém, para piorar a situação, sua esposa Elle descobriu que tinha um câncer no ovário. Precisava buscar tratamento para ela. Não havia como regressar, naquele momento, ao seu país de origem. Felizmente, conseguiu que a operassem. Quando ela melhorou, Daniel recebeu a ajuda de amigos e conseguiu abrir uma oficina. “Já não éramos mais escravos”, ele aponta. A sua vida começou a mudar.

Como evangélico, ele freqüentava a igreja da Assembléia de Deus todas as semanas. Como ex-pastor, sentia falta de cultos em espanhol para os seus pares. Daniel, então, escreveu uma carta para o pastor-chefe da Assembléia contando a sua experiência e pleiteando um espaço para que ele pudesse realizar os seus sermões. Foi atendido.

Logo, voltou ao antigo trabalho, trazendo cada vez mais latinos àquela igreja. Passou a pregar a sua fé, ou seja, as lições da Bíblia do modo como sempre havia ensinado na Bolívia. Isso causou revolta entre outros pastores, que não o consideravam -por ele não ser batizado- apto a exercer aquela função, nem concordavam com algumas de suas doutrinas. Eis que um dia, enquanto Daniel pregava um culto, a igreja viu-se invadida por diversos pastores, que pediram que ele se retirasse dali, perante os seus compatriotas, e o acusaram publicamente de “mentiroso, enganador, falsário”. Foi destituído do cargo e expulso da Assembléia.

Mas Daniel não desistiu. Já possuía seus seguidores, que passaram a acompanhar os cultos na sua própria casa, espalhados pelos beliches ou sentados no chão, enquanto as crianças ficavam em um quarto separado. Juntos, eles cantavam e oravam, pedindo a Deus que lhes apontasse o que fariam, agora que não tinham mais o apoio da Assembléia e o espaço físico lhes era limitado. Foi quando a Igreja Batista apareceu e convidou Daniel para seguir com os seus sermões.

Este agarrou, novamente, a oportunidade. Hoje, assistem regularmente ao seu culto cerca de 80 “hermanos”. Já passaram por sua igreja mais de 200 bolivianos adultos e 100 crianças. Além dos cultos, são oferecidos a eles cursos de Língua Portuguesa e de Informática, outras conquistas de Daniel. Pergunto-lhe se é possível resumir a sua vida, que tão bem representa a de outros milhares de bolivianos, em uma frase. Com o olhar distante, quem sabe se lembrando do menino humilde que saiu da região do Titicaca e chegou até ali, ele repete: “Sem Deus, nada somos. Mas Deus, sem nós, segue sendo Deus”. Enquanto ele diz isso, vejo lágrimas se desenhando em suas pálpebras. Fim das perguntas. Estou diante de um exemplo de perseverança.

24/03/2008 – A Era Negra do Cinema

O mais inspirador dos filmes de Hollywood, além de considerado subversivo pelo FBI, teve – talvez – um espião da agência infiltrado em seu elenco.

O filme A Felicidade Não Se Compra(1) conta a história de um jovem banqueiro que busca o suicídio na noite de Natal. Impedido por um anjo, ele descobre (através deste) como seria o mundo caso não tivesse nascido, percebendo a sua importância para os moradores da pequena cidade onde vive.

É baseado na história The Greatest Gift (título sem tradução para o Português), um pequeno conto escrito por Philip Van Doren Stern. Stern, um veterano da Guerra Civil, tentou inicialmente publicar a sua obra(2), mas acabou vendendo os direitos para uma produtora de filmes, a RKO Pictures. Esta, por sua vez, revendeu-os para o ex-combatente da Segunda Guerra Mundial Frank Capra, sócio da recém-criada Liberty Films, responsável por dirigir e produzir A Felicidade Não Se Compra.

Lançada em 1946, a película recebeu cinco indicações ao Oscar(3), mas não obteve nenhuma estatueta. Na época, arrecadou em bilheteria menos do que o total investido em sua produção(4). No seu elenco, entre outros, constam os atores James Stewart, Donna Reed e Lionel Barrymore, este último no papel de um banqueiro ranzinza que disputa com o personagem de Stewart o controle sobre as economias dos cidadãos.

Apesar do insucesso inicial, A Felicidade Não Se Compra obteve o reconhecimento a partir da década de 70, quando foi exibido por diversos canais de televisão. Posteriormente, o filme foi considerado o mais inspirador(5) e mais poderoso de Hollywood e a segunda melhor produção a nunca ganhar um Oscar(6).

Por detrás desta história natalina, feita para uma sociedade americana que buscava resgatar seus valores de família, bons costumes e prosperidade em um período pós-guerra, é difícil imaginar que pudesse existir uma conspiração pró-comunismo. Mas foi o que o FBI pensou, em 1947, ao classificá-lo como subversivo.

O cenário externo

Em 1947, a Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética atingiu um de seus períodos mais sombrios7. De um lado, a URSS construiu cercas para isolar o território conquistado durante a Segunda Guerra; de outro, comandados pelo presidente Harry Truman e apoiados pelo diretor do FBI, J. Edgar Hoover, os EUA começaram a investigar infiltrações comunistas dentro de seus domínios.

Para realizar as investigações, em outubro daquele mesmo ano, foi instaurado o Comitê sobre Atividades Não-Americanas. O objetivo do Comitê, que possuía como um de seus representantes o jovem Richard Nixon8, era identificar se agentes ou simpatizantes comunistas haviam colocado propaganda do regime soviético nos filmes dos EUA. Num episódio chamado de A Lista Negra de Hollywood, vários atores, produtores e roteiristas foram convocados para depor.

Das várias personalidades entrevistadas, entre as quais figuravam Walt Disney, Jack Warner, fundador da Warner Brother Pictures, e o então presidente do Sindicato dos Artistas, Ronald Reagan, dez recusaram-se a responder às questões impostas pelo Comitê. Embora a Quinta Emenda da Constituição dos EUA lhes assegurasse o direito de permanecerem calados, estes foram acusados de desrespeito e condenados a um ano de prisão. Eles tiveram as suas carreiras devastadas e ficaram conhecidos como os Dez de Hollywood.

Anos mais tarde, a liberação de alguns arquivos do FBI provaria que outros artistas, embora não entrevistados pelo Comitê, também estavam sob investigação.

A Felicidade Não se Compra sob suspeita

Um dos documentos do FBI, datado de 27 de Maio de 1947, acusava o diretor Frank Capra, através de seu filme A Felicidade Não se Compra, de possuir pensamentos comunistas.

Mais precisamente, o documento avalia que “o filme deliberadamente endiabra a classe alta, mostrando as pessoas que têm dinheiro como personagens arrogantes e desprezíveis”. Em outro trecho, diz que “aplica-se descrédito aos banqueiros, colocando o personagem de Lionel Barrymore como um ‘Tio Patinhas’, de modo que ele se torna o mais odiado no filme”. E finaliza: “Isto (…) é um truque muito usado pelos comunistas”.

O arquivo do FBI ainda compara A Felicidade Não Se Compra a uma película soviética chamada “A Carta”, produzida uns quinze anos antes. Neste trecho, observa-se uma semelhança na cena em que o ator do filme americano Thomas Mitchell perde o dinheiro que iria depositar no banco.

Acredita-se que, devido ao tudo isto, o diretor Frank Capra chegou a ter a sua vida investigada. E o pior, por um de seus atoras favoritos, protagonista de A Felicidade Não Se Compra, James Stewart.

Uma publicação recente sobre a biografia de James Stewart revela que este último foi “inescrupulosamente manipulado a delatar comunistas suspeitos dentro da indústria cinematográfica”.

O certo é que, por também ter atuado na Segunda Guerra Mundial, Stewart possuía uma relação de amizade com J. Edgar Hoover (ambos trocavam correspondências no pós-guerra). Suspeita-se que isto o levou a trabalhar como agente secreto do FBI durante a infame caça às bruxas promovida por este órgão.

A verdade

Se há ou não tendências comunistas em A Felicidade Não Se Compra, elas não divergem das observadas em diversas outras obras contemporâneas, por exemplo, Os Melhores Anos de Nossas Vidas, filme este que arrebatou daquele as principais premiações de 1947.

O filme (convém lembrar) é uma reprodução do conto The Greatest Gift, que também fala sobre um banqueiro bom e outro ruim.

Sobre o filme russo mencionado pelo FBI, The Letter, não existe qualquer referência. Aliás, pouco se preservou dos filmes russos da década de 30.

O desfecho

Em 1997, 50 anos após o episódio da Lista Negra, Hollywood pediu desculpas a todos os artistas vitimados por ele, buscando restabelecer-lhes o crédito tirado na época. Isso pareceu não

“Como um cidadão americano de origem alemã, (…) tenho uma dolorosa familiaridade com certas tendências políticas. Intolerância espiritual, inquéritos policiais (…) em nome de um alegado ‘estado de emergência’… Foi assim que começou na Alemanha. O que se seguiu foi o Fascismo e o que seguiu o fascismo foi a guerra.”

Em primeiro de agosto de 1984, curiosamente havia exatos 70 anos do início da Primeira Guerra Mundial, morreu Van Doren Stern.

1. Título em inglês: It’s a Wonderful Life. Liberty Films, 1946.
2. O livro acabou sendo publicado, porém anos após o filme que o destacou.
3. Diretor, Ator Principal, Montagem, Edição e Trilha Sonora.
4. O filme custou 3,7 milhões de dólares e arrecadou apenas 3,3 milhões.
5. American Films Institute, 2006.
6. Revista Radio Times, da BBC, 2004.

29/04/2008 – O Mundo da Lua

“If you believed, they put a man on the moon…” (Se você acreditou, eles puseram um homem na lua), diz a canção do REM. Embora ela se refira a um dos eventos históricos mais significativos do século XX, ocorrido em meados da década de sessenta, a verdade é que a lua sempre exerceu enorme atração sobre os seres humanos. De Platão a Júlio Verne, do Lobisomem a São Jorge, do Tarô à Astrologia, dos egípcios aos incas, várias foram as associações mitológicas criadas a partir do maior astro do pálio noturno.

Imagine-se dirigir o olhar, à noite, para aquela forma redonda, grandiosa e brilhante, menos brilhante do que o sol, de fato, mas rodeada de pequenos pontos luminosos no céu. Pense que você nunca ouviu falar dela. Então, ao tentar entendê-la, é certo que virão as perguntas: Por que a lua existe? De que será feita? Existe alguém a habitá-la? Ou ainda, terá ela alguma influência sobre a vida na Terra?

Tais questões intrigaram os homens desde as primeiras civilizações a habitar o planeta. Como não havia base filosófica, racional o suficiente para explicar a presença daquela imensa figura atravessando o espaço noturno, várias respostas surgiram, a maioria delas associadas à mitologia. Os mesopotâmicos, por exemplo, criaram um deus para a lua, chamado Nanna (ou Nannar). Para eles, a fase crescente lunar representava uma barca deste deus, na qual ele percorria o céu. Na mitologia japonesa, o deus lunar levava o nome Tsukuyomi, nascido do olho direito de Izanagi, divindade do Caos. Para os egípcios, a lua foi representada pela deusa Ísis, amante de Osíris, a quem manteve vivo apenas o suficiente para que a engravidasse. Ártemis representou a lua para os gregos. Reza a lenda que esta deusa, também conhecida como “A Caçadora”, uma vez desafiada pelo irmão Apolo a atingir com uma flecha um ponto bem distante, prontamente o fez, descobrindo em seguida se tratar o alvo de seu amado Orion, a quem após matar transformou numa constelação. Os romanos a chamaram Diana, deusa casta que converteu em cervo o caçador que a viu tomando banho. Para os Maias, a Lua também recebeu o nome de uma deusa, Ixchel.

Obras foram erguidas para representar o satélite terrestre. O mais famoso deles, o Templo de Ártemis, foi considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo. Embora este não exista mais, há em Machu Picchu, no Peru, um templo da lua. Em Teotihuacán, os astecas construíram uma pirâmide para o astro. No cristianismo, a lua é em si uma obra de Deus, concebida no Terceiro Dia do Gênesis.

A criação de mitos em torno da lua continuou na Europa medieval, com a figura do Lobisomem, um homem que se transforma em lobo nas noites de lua cheia. São Jorge, santo da Igreja Católica representado num famoso quadro de Rafael, também teve sua história relacionada à superfície lunar: diz a tradição que as manchas apresentadas pela lua representam o milagroso santo e sua espada pronto para defender aqueles que buscam sua ajuda.

Finalmente, o astro noturno recebeu outras representações: no Tarô de Marselha, significa a décima oitava carta, aquela relacionada à inteligência instintiva, ou ao simbolismo. Na astrologia, sua posição expressa o mundo emocional. É interessante observar, em várias culturas, a associação da lua com as emoções, em especial o amor.

Foi na Grécia Antiga que os filósofos começaram a tentar explicar a lua em termos racionais. Para responder a questões sobre sua existência, localização e trajetória, vários pensadores se debruçaram noites a observá-la. Platão, um dos primeiros a ter idéias cosmológicas, propôs que a Lua era um círculo perfeito, realizando um movimento de rotação em torno da Terra. Anos mais tarde, curiosamente, um discípulo da escola de Aristóteles o ratificava: Aristarco.

Nascido em 310 a.C., em Samos, na Grécia, Aristarco foi o primeiro astrônomo conhecido a medir a distância da Terra à lua. Apesar de obter valores distantes da realidade, seus métodos estavam de tal forma corretos que o seu nome é atribuído a uma cratera lunar. Foi ele, inclusive, o primeiro a propor o modelo heliocêntrico, com a Terra girando em torno do sol. Ptolomeu haveria de prejudicar este conceito, propondo que era a Terra ficava estacionada enquanto os demais astros, como a lua, giravam em torno dela.

Só séculos mais tarde, após o Renascimento, é que desenvolvimentos científicos provariam que Aristarco estava correto. Um dos inventos, a luneta, passava a ser utilizado para entender melhor a lua, notadamente por um dos maiores astrônomos dessa época: Galileu Galilei.

Todo este conhecimento adquirido em torno do astro começava a desmistificá-lo. A lua passou a ser um astro simples, como qualquer outro satélite, menor do que o planeta que orbitava; seus movimentos podiam ser antecipados com a precisão de milímetros; sua composição química foi ficando cada vez mais refinada. Mas faltava o elemento principal do racionalismo científico, aquele que derrubaria os mitos em torno do astro: a experiência in loco.

Anos se passaram até que a humanidade realmente fundamentasse o desejo de ir à lua. Júlio Verne tornou o assunto popular ao escrever Da Terra à Lua, em 1865. Embora seus personagens não tivessem realmente pisado em solo lunar, sua aventura começava a inspirar os cientistas. Tal idéia ganhou força com um dos primeiros curtas-metragens da história, Viagem à Lua, de Georges Méliès (1902).

Sessenta e sete anos mais tarde, Neil Armstrong realizava um feito marcante, transformando a lua em um objeto real, atingível pelos terrestres. Entretanto, embora sua frase “um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade” seja uma das mais importantes da história das realizações humanas, ela certamente não teria o mesmo significado caso não estivesse presente, na aterrissagem da nave Apolo, um objeto capaz de validar o acontecimento, racionalizando-o numa escala global, sem precedentes; algo que se propunha a desfazer a nossa visão ainda um pouco mítica sobre aquele astro a 380 mil quilômetros da Terra: uma câmera filmadora…

PS – O mito sobre a lua não terminou com a viagem de Armstrong. Há quem exiba provas para alegar que a sua chegada à lua foi uma fraude, montada em estúdio, para ser usada como propaganda do regime norte-americano durante a Guerra Fria. Há também quem prometa um cabelo mais vistoso se cortado em dias de lua cheia. Há quem acredite em seres vivendo do lado escuro da lua. E por aí vai…

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